“O samba é a Bahia”, afirma Vadinho França, presidente da Unesamba e fundador do Alvorada
No Carnaval de Salvador, o samba sempre dialogou com sonoridades como o ijexá, o afoxé e, mais tarde, o samba-reggae. Blocos afro como Ilê Aiyê, Filhos de Gandhy e Olodum foram fundamentais nesse processo de renovação. Hoje, o gênero ocupa lugar de destaque na abertura oficial da festa, no Circuito Osmar (Campo Grande), com desfiles que reúnem tradição, identidade e grande participação popular.
É nesse circuito que atuam os blocos ligados à Unesamba — União das Entidades de Samba da Bahia, presidida por Vadinho França, também fundador e presidente do Bloco Alvorada, o primeiro bloco de samba do Carnaval de Salvador.
“O grande protagonista da nossa história é o samba. Ele tem cheiro de dendê, gosto de acarajé, água de coco. O samba é a Bahia”, destaca Vadinho.
Como já dizia Vinicius de Moraes, o samba nasceu na Bahia. A frase ecoa com ainda mais força no Carnaval de Salvador 2026, que adota como tema “O Samba Nasceu Aqui”, celebrando a Bahia como berço de um dos ritmos mais populares da música brasileira. A escolha também marca os 110 anos do primeiro registro oficial do gênero, reforçando suas raízes afro-baianas.
Alvorada leva fé para a Avenida
Em 2026, o Bloco Alvorada celebra meio século de existência levando para a Avenida o tema “Nengua Guanguacese: 100 anos de mar, folha e fé”, uma homenagem à sacerdotisa Mãe Olga do Bate Folha, uma das mais importantes líderes espirituais da nação Angola e referência do Terreiro Bate Folha — o Manso Banduquenqué, reconhecido como o primeiro terreiro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Mais do que um desfile, o Alvorada propõe um rito de reverência. A homenagem celebra o centenário da sacerdotisa nascida em 17 de março de 1925. A homenagem proposta pelo Alvorada parte de três forças que traduzem a caminhada de Mãe Olga: o mar, a folha e a fé. O mar, domínio de Kukueto, representa o movimento da vida e a criação. A folha simboliza o poder de cura e a energia vital que alimenta o axé. Já a fé, expressa no branco que cobre a avenida, é o fio condutor que liga o terreiro ao samba, o sagrado ao popular, o tambor ao coração.
“O Alvorada sempre falou dos nossos. Já homenageamos o Bate Folha, a Igreja do Rosário dos Pretos… Porque são essas questões que, na verdade, nos deram um exemplo de resistência, de perseverança”, explica Vadinho.
Neste ano, o desfile da Sexta-feira de Carnaval contará novamente com grandes nomes do samba baiano. A ala de canto reunirá Bira (Negros de Fé), Arnaldo Rafael, Romilson (Partido Popular), Marco Poca Olho, Valdélio França, Tiago Dantas (Representa) e Rogério Bambeia, com participações especiais de Marquinho Sensação, Renato da Rocinha e Roberto Mendes.
“Ala de canto não é novidade, é tradição. Antigamente todos os blocos tinham. A gente manteve porque samba, para nós, não é opção, é regra”, reforça Vadinho.
Samba como força viva da cidade
Para Vadinho França, falar de Carnaval na Bahia sem falar do samba — e sem falar do Alvorada — é impossível.
“O samba nasceu aqui mesmo. Ele vem do Recôncavo. Esse tema do Carnaval é especial para quem criou, para quem faz”, explica.
Ao todo, a Unesamba contempla nove blocos: Alvorada, Alerta Geral, Pagode Total, Proibido Proibir, Reduto do Samba, Vem Sambar, Que Felicidade, Samba Popular e Amor e Paixão. No Carnaval, no Circuito Osmar, os grupos seguem a tradição de sair na quinta, sexta e sábado.
“Pelas estatísticas daqueles que ordenam o Carnaval, nos passam que nesse momento, no Circuito Osmar, é onde tem o maior público. O povo vai pra rua pra ver esses blocos”, afirma Vadinho.
No resto do ano, o samba continua sendo a trilha sonora da cidade. Segundo Vadinho, o gênero vive um momento vibrante de renovação. “O samba, em Salvador, está vivendo um bom momento. Ele rejuvenesceu, se faz de segunda a segunda”, garante.
Sobre o Alvorada
Fundado em 1º de janeiro de 1975 por jovens estudantes do Colégio Severino Vieira — entre eles Vadinho França, também fundador da Unesamba, que reúne os nove blocos de samba da folia baiana —, o Alvorada nasceu no Gravatá e foi responsável por inaugurar a Sexta-feira de Carnaval, abrindo oficialmente o primeiro dia da festa na capital baiana. Seu nome simboliza justamente esse papel: o de anunciar o nascer do Carnaval, o despertar da alegria e da tradição do samba.
Ao longo de cinco décadas, o Alvorada manteve viva sua essência: repertório próprio, ala de canto com artistas da terra, ala das baianas e de passistas, e o inconfundível galo de três metros, que abre o cortejo da agremiação. Mas o bloco é mais do que um símbolo da avenida. Durante todo o ano, realiza ações sociais e culturais com a comunidade, como a Feira de Empreendedores Negros, o tradicional caruru que marca o início dos ensaios e a Lavagem da Fonte de Nanã, rituais que reforçam a ligação espiritual com o Terreiro Bate Folha e com a religiosidade afro-baiana.
Por Giovanna Araujo


